O "Fumo, logo insisto" não está sendo atualizado, no momento, porque estou envolvido em outros projetos. Aos internautas que baixarem por aqui, convido-os a passear pelos posts arquivados.
Por conta da restrição à propaganda de cigarros, os fabricantes estão investindo cada vez mais no único espaço que lhes sobrou: os próprios maços, que ficam expostos nas gôndolas nas lojas. O resultado disso é uma verdadeira guerra visual: enquanto o Ministério da Saúde ataca com as suas fotos chocantes, a indústria do tabaco desenvolve embalagens cada vez mais atraentes. Vou até fazer uma confidência: outro dia, eu não resisti e comprei uma caixa com 2 maços de holliwood, porque gamei num canivete que vinha junto, desses que vira alicate. Custava R$9,90 e vinha com uma capinha pra colocar no cinto. A moça do caixa só ficou surpresa quando eu disse que só ia levar a caixa, sem os maços: "leva e dá de presente pra algum amigo seu", sugeriu ela. "Mas eu não quero que meus amigos fumem", respondi.
A China é um dos países com o maior índice de tabagismo entre a população adulta. É também um dos únicos lugares no mundo onde não estão a venda as marcas mundiais da indústria do fumo, como Marlboro, Camel, etc. Isso porque o governo chinês detém o monopólio de toda a fabricação de cigarro.
Taí uma coisa surpreendente! Recentemente, perguntei a uma amiga chinesa como o governo podia estar fabricando um produto que prejudicava a saúde de sua própria população. A resposta foi a seguinte: na China, o estado está mais preocupado em manter as pessoas "felizes" do que saudáveis. Felizes e certamente alienadas, também.
Clique na imagem para assistir ao video (1,5mb). Mac Users: tem uma versão em Quick Time aqui (3,4mb),
Em 1961, os flintstones protagonizaram um inacreditável anúncio para os cigarros Winston, nas TVs americanas. Essa peça de propaganda tem sido usada como uma exemplo irrefutável da política de marketing voltada para o público infanto-juvenil por parte da indústria do cigarro.
Clique na imagem para ver Fred cantar mais uma vez a vinheta final, com a musiquinha (400kb).
O apelo à sexualidade é um tema recorrente na publicidade de cigarro. Vejam alguns exemplos...
Campanha do Lucky Strike na Espanha. Passa a idéia de que os fumantes são pessoas que não têm pudores em quebrar as regras.
Propaganda Peruana. Reparem que nem aparece o rosto da mulher.
Quem fuma não tem constrangimentos. (Winston, Africa do Sul)
Fumar é transgredir. LM, espanha
O que eu pensei sobre tudo isso é o seguinte: num mundo onde cada vez mais as regras dizem que "é proibido fumar", o cigarro é mostrado como uma "transgressão" às regras "caretas". Quem fuma se "afirma"... Quem fuma é "sexy".
Preservativos distribuídos pelos cigarros Shag (Inglaterra), como parte de uma campanha de marketing junto a universitários
E você, acha que fumar é sexy? Deixe aqui o seu recado.
Quando eu vi esses anúncios, eu achei que eram de cigarrinhos de chocolate. Mas acreditem, são de cigarros verdadeiros. Eles foram lançados recentemente no mercado americano, aproveitando as sazonalidades. Esses aí de cima são os do inverno. Aqui embaixo estão os do verão.
Camels sabor côco com abacaxi e frutas cítricas (2004)
As organizações anti-tabaco americanas protestaram contra a comercialização desses produtos e acusaram a R.J. Reynolds de estar investindo no público adolescente. A empresa alegou estar apenas oferecendo mais opções para seus consumidores.
Um aspecto que é especialmente perverso nos cigarros flavorizados é que eles não são atrativos para os adolescentes apenas pela embalagem ou por terem gosto de bala. Os sabores artificiais ajudam a disfarçar o gosto amargo do cigarro e o cheiro que fica na boca. Perfeitos para quem está começando a fumar.
O maço motorizado da Philip Morris recebe a benção
do santo pontífice.
Esta cena que vocês estão vendo aí é real e
aconteceu há poucos dias, no Vaticano. Na visita protagonizada pela equipe da
Escuderia Ferrari, o Papa recebeu de presente algo cuja utilidade eu não
consigo imaginar qual será: uma miniatura do famoso carro de corrida
vermelho. Como as imagens do inusitado encontro demonstram, a Ferrari e a
Phillip Morris aproveitaram a ocasião para descolar um esperto
merchandising junto ao santo homem (aí sim encontramos a verdadeira
serventia do carrinho).
dois ícones da cultura pop: o
papa e a ferrari
Outro motivo que me levou a fazer este post
foi o excelente texto do Eugenio Bucci que encontrei, sobre tabagismo e
mídia, e que menciona este problema da Fórmula 1. Recomendo
enfaticamente a sua leitura, o link é este aqui.
Adendo ao adendo (em
23/01/05): Coincidência? Ou seria a entrada em vigor da nova (e
severa) legislação anti-fumo da Itália o verdadeiro motivo da visita
ao Papa? Clique
aqui para saber mais sobre isso.
Essa história aconteceu nos EUA e revela o quão forte pode ser o lobby da indústria do cigarro. Em 1995, o presidente Bill Clinton promulgou uma medida que visava a diminuição do tabagismo entre crianças e adolescentes. Por essa medida, o FDA ganhava poderes para fiscalizar todos os produtos derivados do tabaco e restringir a sua propaganda. O FDA (Food and Drugs administration) é o órgão governamental americano que controla, fiscaliza e licencia os alimentos e remédios distribuídos nos EUA.
O plano do presidente Clinton visava reduzir o número de crianças e adolescentes fumantes pela metade, num prazo de 7 anos. Foi proibida a venda de cigarros para menores de 18 anos e estipulou-se que os comerciantes deveriam checar as identidades dos compradores de cigarro com até 27 anos. O FDA passou a regular a publicidade do cigarro, proibindo, dentre outras coisas, o patrocínio de eventos esportivos e a distribuição de amostras grátis de cigarro. Além disso, toda propaganda de cigarro - incluíndo cartazes externos em lojas de conveniência - não poderia ser feita num raio de 300 metros de onde houvesse uma escola. Máquinas self-service de venda de cigarro só seriam permitidas em locais onde fosse proibida a entrada de menores de idade, e assim por diante. O FDA planejava, ainda, proibir toda a publicidade de cigarro, exceto aquela que fosse composta por texto preto e branco, sem imagens.
Cigarros Camel com sabor de bala de frutas, comercializados pela R.J. Reynolds.
Foi então que começou a reação da indústria do fumo. A Brown and Willianson Tobacco Corporation, juntamente com a Associação Nacional dos Lojistas (NSA) ingressou com uma ação na justiça, questionando a legitimidade do FDA para restringir a publicidade do tabaco. Em 1997, o juiz William Osteen decidiu em primeira instância que o FDA não tinha competência para regular a publicidade de cigarro, mas que poderia continuar fiscalizando o cigarro enquanto produto. As medidas restritivas do FDA caíram por terra, mas recorreu-se da decisão.
Fliperama do Marlboro, colocado em bares (2002).
O caso foi parar, então, na suprema corte. Em março de 2000, por 5 votos contra 4 (sendo que 3 juízes eram fumantes) a suprema corte deu ganho de causa para a indústria do fumo. A sentença determinou que o FDA não teria mais qualquer ingerência sobre os derivados do tabaco. Argumentos:
1) as vendas de cigarro são uma parte importante da economia, que deve ser protegida;
2) O FDA somente poderá fiscalizar o cigarro se for aprovada no congresso uma medida relativa a isso;
3) Já que o cigarro é um produto nocivo à saúde, e não existem níveis seguros de consumo, o FDA acabaria sendo forçado a retirá-lo de circulação. Se isso acontecesse, muitos americanos sofreriam.
Desde então, numerosas organizações têm se mobilizado para que o congresso restitua os poderes do FDA. Mas isso não está nem perto de acontecer...
p.s. as imagens deste post são de uma campanha pelo controle da propaganda de cigarro. Clique aqui para saber mais.
p.s. vamos dar uma força pra comunidade que o Henrique Tardelli - leitor do nosso blog - criou no ORKUT: a "Associação Anti-Tabaco". O link é esse aqui.
As corridas de Fórmula 1 são o esporte no qual a indústria do fumo mais investe dinheiro. Pilotos arrojados, que arriscam suas vidas pelo prazer de guiar bólidos fazedores de fumaça são, certamente, garotos propaganda perfeitos para os fabricantes de cigarro. Além disso, enquanto em muitos esportes o patrocínio nem sempre é visível, na Fórmula 1 os carros e os pilotos são verdadeiros outdoors ambulantes.
o campeão do momento, na sua vestimenta-maço...
...e alguns de seus concorrentes, à frente de um carro-maço
A Fórmula 1 é um dos esportes de maior audiência televisiva de todo o planeta. Cada piloto defende a bandeira de seu país. Muitos são idolatrados, sobretudo pelas crianças e adolescentes.
A bandeira do Brasil e a marca de cigarro festejam a vitória de um dos maiores ídolos do nosso esporte.
Em alguns países europeus, como França e Inglaterra, a publicidade de cigarros está proibida nos eventos esportivos, incluíndo-se a Formula 1. Quando é realizada uma corrida num desses países, as equipes são forçadas a retirar as propagandas dos carros. No Brasil essa proibição também está prevista em lei, mas nunca chegou a ser posta em prática. Em 2002, 2 dias antes da realização do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, o presidente Lula editou uma medida provisória que liberava a publicidade de cigarros nos eventos internacionais de automobilismo realizados aqui. Fez isso temendo a ameaça feita pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) de retirar o Brasil do calendário internacional das corridas.